quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Centro de Farmacologia Pré-Clínica em Florianópolis terá 2 biotérios




Essa matéria chegou a circular nos canais de divulgação da proteção animal logo no inicio do ano de 20123,  porém na época não despertou muito interesse. Com a comoção causada pela invasão do Instituto Royal e com a divulgação deste tema na mídia,  ela voltou a aparecer.
Para os que não leram na época ou não tem acesso à revista  Valor Economico segue a matéria na íntegra.


   
Laboratório terá cobaia com padrão global
Por Bettina Barros e Mônica Scaramuzzo | De São Paulo
 
Tradicional produtor de genéricos, o Brasil se prepara para dar um salto no desenvolvimento de medicamentos inovadores com padrão internacional. Com investimentos de R$ 30 milhões dos governos federal e de Santa Catarina, será inaugurado nos próximos meses o primeiro Centro de Farmacologia Pré-Clínica de ponta do país, que possibilitará à indústria farmacêutica nacional realizar os testes de toxicidade em animais necessários para a aprovação de novos medicamentos ao mercado.
Os testes de toxicidade são uma etapa importante no processo de desenvolvimento de um remédio porque comprovam ou não a sua eficácia, antes de serem testados em humanos. Atualmente, os laboratórios locais terceirizam esse serviço em outros países, sobretudo nos EUA. Empresas brasileiras e universidades federais do país até fazem esse trabalho, mas os registros desses medicamentos não têm reconhecimento internacional.

Localizado em Florianópolis, em uma área de 7 mil m2 dentro do Parque de Inovação Sapiens, o centro faz parte de um programa maior do governo federal - a Rede de Ensaios Pré-Clínicos, criada para fomentar a cadeia de desenvolvimento de um medicamento, desde a pesquisa básica (identificação de moléculas), fases pré-clínicas (testes em animais) e clínicas (em humanos) até a sua comercialização. A inauguração desta primeira unidade é vista como crucial pelo governo federal: apesar de ser um dos dez maiores mercados consumidores de medicamentos do mundo, o Brasil ainda é dependente da importação de farmoquímicos e medicamentos acabados.
 
Localização do futuro Centro de Farmacologia Pré Clinica - foto site SAPIENS PARQUE
 

É também um desdobramento da estratégia do governo de construção de uma indústria farmacêutica nacional forte, iniciada no ano passado com a criação da Bionovis (formada por Aché, Hypermarcas, EMS e União Química) e a Orygen Biotecnologia (Biolab, Eurofarma e Cristália), que receberão aportes federais para desenvolver no próximo triênio sete produtos biossimilares - a versão genérica de medicamentos biológicos.
Segundo fontes ouvidas pelo Valor, a falta de um laboratório para testes pré-clínicos referendado internacionalmente já trouxe prejuízos ao país. O Acheflan, pomada anti-inflamatória do laboratório Aché, é um exemplo de medicamento local de sucesso que não obteve registro global pela ausência de testes de toxicidade no país reconhecidos no exterior. Após desenhar a indústria, o movimento seguinte esperado era montar a ponta inicial da cadeia.
"O centro é resultado da constatação de que no Brasil não existem instituições capazes de realizar ensaios pré-clínicos que atendam as exigências de organizações reguladoras internacionais, e isso é um importante gargalo na inovação no setor de fármacos e medicamentos no Brasil", diz João Calixto, coordenador do centro e professor do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). "Será uma referência na América Latina".
A expectativa é que a realização desses testes no Brasil reduza entre 30% a 40% os custos de fabricação de remédios no país, segundo fontes ouvidas pelo Valor. Não é pouca coisa. Os estudos pré-clínicos respondem por cerca de 10% a 15%, dependendo da sua complexidade, do US$ 1 bilhão em geral investido pela indústria para colocar uma nova droga na prateleira.
A estratégia de desenvolver tecnologia nacional foi costurada pelos Ministérios de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Saúde, em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Outras quatro unidades fazem parte do programa: o Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos, com a Universidade Federal do Ceará; o Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde, com a Fiocruz (RJ) (que devem ser inaugurados nos próximos meses); o Instituto Royal, em São Roque (SP); e o Laboratório Nacional de Biociências do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em Campinas, os últimos dois já em operação.

Em Florianópolis estarão disponíveis para pesquisa científica 20 laboratórios e dois biotérios - local onde são criados os animais usados como cobaias. O primeiro, com inauguração prevista até abril, será destinado a roedores - ratos e camundongos, os primeiros na linha de sucessão de testes. O segundo, com previsão de abertura no fim deste ano, abrigará cães, coelhos, porcos e primatas, animais com fisiologia mais próxima à do homem e que, por esse motivo, são utilizados após os roedores no refinamento da pequisa por provas de eficiência químic
Sua missão será ajudar a produção dos chamados medicamentos complexos - drogas contra câncer e artrite reumatoide, por exemplo.
Para colocar o projeto em prática, o centro está finalizando a compra de 20 a 30 casais de roedores, a um custo previsto de US$ 20 mil, que servirão como matrizes para os experimentos. A partir desses casais, será feita a reprodução e criação da colônia, que idealmente chegará a 50 mil ratos e 80 mil camundongos por ano. "São roedores de linhagens qualificadas, criados em condições sanitárias controladas, sem contato com vírus e bactérias", afirma Calixto. Segundo ele, os animais de porte maior serão adquiridos no mercado interno e importados, conforme a demanda da indústria para testes de novos medicamentos.
Além desses animais, a unidade negocia também a parceria com a farmacêutica americana Pfizer, que deverá prover ratos transgênicos doentes - modificados geneticamente para que já nasçam com doenças desejadas pela indústria, como hipertensão, colesterol alto e diabetes, a fim de pesquisa.

Eduardo Marques/Tempo Editorial/Valor 
 O professor João Calixto será o coordenador do centro de farmacologia de SC

Como a mão de obra no setor farmacêutico nacional é escassa e falta expertise no desenvolvimento de produtos, o centro de Santa Catarina também planeja uma parceria de capacitação com a farmacêutica francesa Sanofi. Segundo Jaderson Lima, diretor de alianças médicas e científicas da Sanofi Brasil, os profissionais serão transferidos para as unidades da multinacional em Cambridge (EUA) e Frankfurt, onde terão oportunidade de acompanhar processos pré-clínicos e biológicos por um ano. O acordo prevê o treinamento de até oito profissionais pós-doutorados.
Os testes em animais são uma prática consolidada mundialmente na indústria, que os considera indispensáveis no processo de desenvolvimento de medicamentos. Mas nem por isso estão longe de polêmicas. Para grupos de defesa animal, tratam-se de crimes cometidos por maus tratos, apesar da obrigatoriedade de comitês de ética para supervisionar os procedimentos, e sem necessidade.

Otávio Dias de Oliveira/Valor 
 Os ratos são utilizados na primeira etapa dos ensaios pré-clínicos

"Já existem inúmeros métodos eficientes e eficazes que podem e já estão sendo usados nessa área. Mas os animais continuam sendo usados porque são mais baratos", afirma Carlos Rosolen, do Projeto Esperança Animal (PEA), o equivalente brasileiro à poderosa People for the Ethic Treatment of Animals (Peta), dos EUA. "Quando nos referimos a animais, partimos do pressuposto que são vidas, sentem dor, medo e tudo que podemos sentir."
O debate em torno dos animais como cobaia é mais acalorado quando o produto não é um medicamento que possa salvar vidas - mas um rímel ou xampu novo. Na indústria de cosméticos, o movimento contra o uso de animais em testes teve como seu expoente a rede britânica The Body Shop. No Brasil, a Natura anunciou em 2006 que seguiria igual caminho. A fim de garantir a eficácia e a segurança dos produtos, a empresa diz se valer de modelos computacionais, pesquisa e revisão dos dados da literatura científica e testes in vitro.
No setor farmacêutico, uma mudança nesse sentido não deve ser rápida. "Por algumas décadas a gente ainda vai usar tudo o que está aqui [animais]", diz Calixto. "Ou alguém vai testar um remédio pela primeira vez no próprio filho?"

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No vídeo abaixo também disponibilizado pelo Valor Economico um resumo da matéria e uma referencia aos estudantes de veterinária da Anhembi Morumbi treinando em um cão simulador.

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